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Site Alô Musica
Maio de 2002




A solução para os cinéfilos cegos:
Mú Carvalho - músicas filmadas em Super16
Felipe Eugênio

Ela ainda está aí. Firme e refinada. A Música Popular Brasileira vive digna e pomposa com seus mais de 103 anos (vamos pôr Chiquinha como marco?... ) Ou seriam cerca de 85 anos (vai Donga com "Pelo Telefone" contra Ismael Silva no samba)? Ou mesmo Villa Lobos... Ary Barroso ou Caymmi?... Acho que seriam brigas demais. Bom, deixemos assim: a "transecular" música popular brasileira não cessa na exaltação de seus virtuoses.

Já que elejo Ernesto Nazaré como paraninfo do disco que aqui se comenta; seja então o célebre pianista do Cinema Odeon (na belle époque carioca), o resgate derradeiro dos primórdios, que ousei palpitar acima, da música popular brasileira. Sua escolha não é em vão.

Em se tratando de seus instrumentistas, a música do Brasil anda de vento em polpa. As circunstâncias exibem Mú Carvalho, pianista que lança uma aquarela de "Brasis" sobre a limpidez acústica de seu instrumento. O disco "O Pianista do Cinema Mudo", lançamento do selo Boogie Woogie, distribuído pela Kuarup, vem a confirmar que a música instrumental do Brasil tem invejável excelência. Por mais que espiões mundo afora nos cerquem, difícil será copiar esse talento nosso. Mas, infelizmente, em tratando de se apropriar é outro papo; o capital estrangeiro faz a festa sobre o patrimônio imaterial.

Numa terra de Hermeto Pascoal, Francis Hime, Henrique Cazes, Guinga, Baden Powell, Menescal, Jacob do Bandolim, Nelson do Cavaquinho, Villa Lobos... Mestre Pixinguinha!... Mú Carvalho porta com elegância a alcunha de músico do Cinema Mudo.

Alusão maravilhosa que Mú, integrante do grupo A Cor do Som, faz à sua árvore genealógica e à sua memória de menino perante a poesia. No caso, trata-se de sua avó Alice, pianista de cinema mudo nas matinês do Cinema Central de Juiz de Fora, homenageada com o disco. Também sua mãe: que elevava ao piano Ernesto Nazareth com choros, maxixes e tangos. No caso da memória, é louvável que o menino rodeado de música e imagens preto & branco, vislumbrado com Chaplin no telão, venha agora a resgatar essas pérolas e torná-las públicas.

Mú Carvalho preencheu com sua arte os referenciais de sua formação. E não poderia estar melhor acompanhado nesta missão. O contrabaixo acústico de Jorge Helder e a percussão de Marcos Suzano, já nos seriam prova suficiente. No entanto, o time de músicos que participam d' O Pianista do Cinema Mudo, de tão talentoso e notório, pode ser considerado como um raio-X da nossa música instrumental. Oswaldinho do Acordeon, Carlos Malta (flauta), Quarteto Bessler (Christine Springuel, Michel Bessler, Hugo Pilger e Bernardo Bessler), Armandinho (bandolim, guitarra), Nivaldo Ornelas (sax soprano, arranjos), dupla de cordas com Marcio Malard e Ricardo Amado; Jurim Moreira e Ary Dias, mais Sidinho, fechando na percussão.

Ao pensar as faixas que se destacam no disco, inevitável é o devaneio. Música formando cenas...

Formou-se a imagem de Mú Carvalho e trio com "Apanhei-te Minimoog". No entanto não seria um trio qualquer, desses que deslancham em jazz por aí. Nada de cello e bateria acompanhando o piano. Neste baião, Mú toca ao lado do triângulo e acordeon, sob uma lona de mambembes, cheio de espectadores empoeirados e de poucos dentes, platéia que se realiza num animado "dancerê" entre risos e lágrimas: Brasil. Homenagem a Ernesto, o Nazaré, autor do famoso choro "Apanhei-te Cavaquinho"; aqui, "levemente" inspirador.

É interessante ouvir no pianista do Cinema Mudo, todo um festival de filmes clássicos. Do tipo que diverte e intriga, filmes que causam frenesi ao espectador - e em momento algum são clichês. Outrossim, cristalizam sensações e imagens frutos da estética de um tempo. Todavia, essas sensações, causadas são pela música, tão somente. O restante, a imagem, esta fica a cargo da bagagem de cada um, das películas que nos preenchem o espaço dos sonhos. Os filmes que o disco provoca são todos e nenhum.

Ouvindo o silêncio do mudo cinema-clássico; pianos chorões e afins; ultrapassamos a limitação da retina para a apreensão das fotos em movimento. Fico tentado a imaginar como não seria ouvir Pixinguinha e seu conjunto "Os Oito Batutas" - que foram os primeiros a tocar samba, chorinho e maxixe - no cinema. Decerto, o filme ficaria em segundo plano se, naquela época (1918) - em que o público e a imprensa resistiam à convivência da música popular brasileira com as imagens - houvesse já o conhecimento sobre a grandeza de Alfredo da Rocha Viana Filho. -

Pois adentremos ao nosso pianista de imagens.
Pegando carona na Sétima Arte, "Em algum lugar do futuro" criar-nos-ia a impressão de que observamos a construção de uma cidade. O progresso selvagem criador de uma metrópole que, outrora, fora apenas mero vilarejo. Aquele tipo de imagens que aceleradas freneticamente, num plano fixo, expõem o movimento vertiginoso do cenário mutante. Encaixaria perfeitamente em algumas cenas de "Nós que aqui estamos, por vós esperamos"; o correr de um século. O crescer de uma cidade e seus instáveis transeuntes.

É maravilhoso o himeneu moderno, ménage à trois, do piano de Mú com Marcos Suzano e Oswaldinho do Acordeon em "O Sol da Noite em Les Baux". O clima sinuoso, cheio de mistério e ação da música, exprime um estilo Piazzolla ao fazer tango. Trilha perfeita para um "Esperpento" de Ramon Del Valle Inclán.

Na "Hotel Guadalupe", Mú Carvalho reabre as portas espanholas com o trompete de Marcio Montarroyos e as castanholas de Sidinho. Que tem junto ao pandeiro de Suzano, compondo a cozinha, a bateria de Jurim Moreira.

O Quarteto Bessler (primeiro e segundo violinos, violoncelo e viola) mais Nivaldo Ornelas (sax soprano e arranjo de cordas) se misturam ao piano de Mú Carvalho em "Uma tarde ao cair do piano", alusão do compositor ao programa de rádio "Um piano ao cair da tarde".

O Carnaval dos Camundongos! Assim deveria se chamar esta música. Pois em "A dança dos Camundongos", Mu carvalho capricha em seu piano Yamaha S80 uma salsa que, decerto, ele resgatou de sua infância de polcas no Clube Finlandês de Penedo. Junto à percussão do trio Sidinho, Ary Dias e Marcos Suzano, a latinidade se debruçou sobre a algazarra da "ratarada" - talvez o clã dos Ratovich's louvando a volta de Fivel; e para criar atmosfera cult, poríamos em preto & branco tal seqüência.

Outro destaque é "Viver Pra Sorrir", na qual Mú Carvalho e Armandinho (no bandolim) deslizam um choro cheio de arroubos jacobnianos. Chuva de virtuosismo. As progressões de Mú são desafiadas pelas notas marotas do bandolim de Armandinho que, em primeiro momento fazem mimetismo, e depois partem para uma afiada conversa instrumental. Para acelerar o doce embate, Marcos Suzano capricha na taquicardia de seu pandeiro.

Zequinha de Abreu, referência da nossa música, também consta no trabalho de Mú Carvalho. Com "Tico Tico no Fubá" para "acariocar" de vez o disco no choro. O convidado desta faixa é Carlos Malta, que além do arranjo, leva a melodia em sua flauta-baixo.

As duas últimas citadas são as únicas composições que não têm Mú como compositor uno. No caso de "Viver pra sorrir", é uma parceria do pianista com Armandinho.

Com "Hello Click", Mú Carvalho homenageia Chick Corea, notório jazzman, versátil pianista de estilo multifacetado (trabalha alternadamente com teclados e pianos em sua carreira, mantendo sempre uma ornamentação musical bem elaborada). Tendo o amigo Armandinho a portar uma guitarra baiana - único instrumento elétrico no disco de Mú.

E "Chapliniana"; a última faixa do disco.

Somente uma pessoa que fosse capaz de incitar tamanha produção de um pianista, merecesse como homenagem uma tão bela peça musical. Mú Carvalho, ao dirigir "Chapliniana" à Ana Zingoni, sua mulher, que com ele produziu o Pianista do Cinema Mudo, criou o fecho-de-ouro para sua realizada arte. A mim, pareceu o mais tenro carinho que se poderia dar (e receber) - essa suave música do pianista, executada com seus amigos do Quarteto Bessler, Oswaldinho, Suzano e Helder. Belíssima serenata em película de 16 milímetros. Feliz seja, a homenageada da sacada! A vizinhança, musicista e cinéfila, também agradece ao pianista & cia. Emudecida, é claro.