< voltar
 
Revista BackStage
Fevereiro de 2002


    CARVALHO
O PIANISTA DO CINEMA MUDO


Com esse novo CD O Pianista do Cinema Mudo, que será lançado este mês pelo selo Boogie Woogie, o instrumentista Mu Carvalho se transporta para uma fase mais madura de sua carreira e transmite toda a alegria da música brasileira em um CD com participações pra lá de especiais.


Lenir Guilhem

Paulinho Tapajós conta que, um dia, Flavita – mãe de Mú ganhou um piano que foi parar no quarto dos meninos. Lá, ela passava o tempo dedilhando suas peças preferidas, principalmente Odeon, de Ernesto Nazareth. Sem que ninguém pudesse entender, Maurício – Mú Carvalho -, que na época tinha 15 anos, sentava ao piano assim que sua mãe se levantava e repetia aquelas execuções como se já tivesse a técnica e o estudo necessários. Ele logo apresentou sua primeira composição, que nunca foi gravada. “Não me recordo exatamente o nome. Era Copo vazio ou Copo de vidro. Eu ficava muito impressionado”, lembra Paulinho, contando que um dia levou Vinicius de Moraes, que estava em seu aniversário na casa de Flavita, para ver aquele menino, totalmente autodidata, tocando com uma agilidade, sensibilidade e musicalidade surpreendentes. “ O Mú ficou muito envergonhado e assustado com a presença daquele ouvinte e quase não conseguiu tocar”, relata Paulinho. Mú confirma a história: “Eu não sabia ler música, mas eu tinha uma facilidade grande para aprender. Com 15 anos, já sabia que o que eu ia fazer da minha vida era tocar piano. Eu sempre gostei muito de fazer as minhas músicas”. 



O instrumentista Mú Carvalho é compositor, pianista, arranjador, produtor musical e filho de uma família envolvida com música. A irmã Heloisa Tapajós é pesquisadora de MPB, o irmão Dadi é baixista, Sérgio de Carvalho é produtor musical e diretor artístico, os primos Homero de Magalhães e Homero de Magalhães filhos são músicos eruditos, seu outro primo, Alain Pierre, é instrumentista. Do piano de casa para os palcos da vida foi um pulo, segundo Heloisa Tapajós. “A gente mal tinha se acostumado a aplaudir o Dadi com os Novos Baianos e já estava na platéia de Jorge Benjor vendo o Mú cheio de swingue ao piano. Veio A Cor do Som e o menino saiu mundo afora”, orgulha-se a irmã. Em uma família como essa, que respira música, não foi difícil ser autodidata. Sua criação em Ipanema, no Rio de Janeiro, em um ambiente musical, ouvindo sua mãe executar peças eruditas ao piano, sempre em contato com músicos e compositores que freqüentavam sua casa, foi sua principal influência.



Mú e Ana, a parceria que deu certo

 

Aos 16 anos, começou sua carreira artística se apresentando com o grupo Semente. Em 1974, estudou técnica de piano com Homero de Magalhães, da Pró-Arte. Nesse mesmo ano, atuou com Jorge Benjor como integrante da Banda do Zé Pretinho. Em 1975, gravou no primeiro disco-solo de Moraes Moreira, juntamente com Dadi, Gustavo e o instrumentista Armandinho. Essa formação, acrescida da percussão de Ary Dias, deu origem, no ano seguinte, ao grupo A Cor do Som, do qual fez parte até 1988. Em 1976, compôs a canção Sapato Velho – com Claudio Nucci e Paulinho Tapajós -, gravado pelo Roupa Nova. Em 1990, acompanhou o Legião Urbana em sua turnê pelo Brasil, gravando com o grupo o disco ao vivo Música para acampamento. O primeiro disco-solo de Mú Carvalho foi lançado em 1985 – Meu continente encontrado -, com músicas de sua autoria. O disco, produzido por Egberto Gismonti, contou com a participação especial do próprio Egberto, nos teclados e piano, de Luiz Eça, no piano, e Zé Luiz, no sax-soprano. De lá pra cá, Mú participou de trabalhos de outros artistas, assinou trilhas sonoras para teatro, cinema e televisão e, na década de 90, foi contratado pela TV Globo como produtor musical e compositor de trilhas incidentais para novelas e seriados. “Quando fui trabalhar na Globo, já estava de saco cheio de viajar acompanhando outros artistas. Aquilo já não fazia muito a minha cabeça.”

 

No final de 2001, terminou seu segundo disco – Mú Carvalho – O pianista do cinema mudo -, que está sendo distribuído pela Kuarup. “Um disco a gente não acaba, a gente abandona. Esse disco, eu fiz como queria, com muita calma. Foram quase dez anos terminá-lo”, conta Mú. Em 1998, Mú fundou com a instrumentista, esposa e sócia Ana Zingoni, o estúdio de gravação e a produtora Boogie Woogie, destinados à produção e criação e execução de trilhas incidentais para cinema e televisão. “Eu já estava quase fazendo uma unidade móvel de tanto mudar, quando a Ana apareceu na minha vida e me deu a maior força, ela também é musicista. Ela me chamou para fazer uma sociedade e a partir disso nasceu o selo. As coisas aconteceram muito rápido”. Tão rápido que uma de suas produções, a coleção Bíblia Sagrada, em 24 volumes, com locução de Cid Moreira, atingiu uma vendagem superior a 15 milhões de cópias, e recebeu o CD de 15 diamantes. Três anos depois, também em sociedade com Ana Zingoni, fundou o selo Boogie Woogie, especializado em música brasileira, onde finalizou seu segundo disco-solo – primeiro lançamento do selo. O CD Mú Carvalho – O pianista do cinema mudo é uma homenagem do artista à sua avó, Alice Magalhães, ‘pianeira’ que encantava o Cinema Central de Juiz de Fora, nos anos 30. “Eu tenho o maior orgulho da minha avó. Eu sempre fui muito interessado em trilha para cinema, achei muito bacana essa história de ela ter trabalhado no cinema mudo, sonorizando o filme na hora”, revela Mu

O NOVO CD 

Heloisa Tapajós diz que sempre provocou o irmão quanto ao seu trabalho como artista solista. “Quando fomos juntos à apresentação do Chick Corea, no Teatro Municipal, não resisti à pergunta: “E você, meu Chick Corea brasileiro?” Veio o Natal de 2001 e com ele o presente que ela tanto esperava: O pianista do cinema mudo. Inteiramente acústico, o disco tem a participação de um time de talentosos instrumentistas. Mú está ao piano, tendo a seu lado, em todas as faixas, o percussionista Marcos Suzano e o baixista Jorge Helder, e assina todos os arranjos de base e todas as composições, com exceção de Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu, faixa que conta com Carlos Malta na flauta em dó baixo. No baião Apanhei-te minimog - título que remete a Apanhei-te cavaquinho, de Ernesto Nazareth – Mú recebe como convidado especial Oswaldinho do Acordeon. No baião Em algum lugar do futuro, o duo formado por Marcio Mallard, violoncelo, e Ricardo Amado, violino, executa o arranjo para cordas de Nivaldo Ornelas. Também estão no novo trabalho o Quarteto Bessler, Marcio Montarroyos, além de Sidinho e Ary Dias refornçando a percussão de Marcos Suzano, e Armandinho ao bandolim.
O CD é um instrumental com a cara alegre do Brasil. “As pessoas falam que o disco é legal de ouvir. Há uma coisa na música instrumental que é o improviso que às vezes só os músicos entendem e fica meio cansativo. Meu disco é mais autoral. Essas peças são de músicas prontas. Acho que minha música é hereditária, está no sangue”, define o pianista


 A OPINIÃO DE AMIGOS E PARCEIROS 

ANA ZINGONI
“É um trabalho cheio de personalidade, simples e ao mesmo tempo complexo, com a marca registrada do Mu, que sabe como ninguém fazer a nossa música, aquela mais raiz de todas, ganhar uma nova roupagem, misturando elementos não convencionais, com a categoria de um profissional antenado com tudo o que acontece no mundo musical contemporâneo. Posso dizer que, ouvindo O pianista do cinema mudo, entramos em uma viagem pelos ritmos musicais do nosso Brasil, passando, entre outros, pelo maxixe, pelo baião e pelo choro.”

CARLOS MALTA
“O piano do Mú é brasileiro, com um sotaque inconfundível de quem vive e vivencia suas influências e as traduz de modo universal, deixando clara sua expressão musical e sua linhagem de herdeiro direto de Ernesto Nazareth. Suas composições em O pianista do cinema mudo são uma suíte em vários movimentos, com traços de continuidade rítmica, harmônica e melódica, revelando um criador coerente com estilo e personalidade. Exímio instrumentista, Mú cria dentro de sua linguagem uma ponte entre os vários matizes de sua paleta sonora, estabelecendo uma feliz comunhão musical com seus parceiros.”

NIVALDO ORNELAS
“Mú é dessas pessoas privilegiadas, que lidam com a música com extrema facilidade. Tudo parece simples para ele. Um talento raro! Seu último disco, na minha opinião, é uma obra-prima. É um trabalho de muito bom gosto, original e absolutamente fiel ao título, é só conferir.”

MARCOS SUZANO
“As composições eram muito legais e ele já tinha algumas coisas concebidas para várias músicas. Eu pude acrescentar algumas idéias e o Mú sempre foi muito receptivo. As músicas têm um clima latino-americano muito raro em trabalhos de música instrumental hoje em dia, o que dá uma uniformidade ao projeto.”