|
O crescimento do número de selos independentes e a sobrevivência do mercado paralelo no momento da grande crise da indústria fonográfica oficial oferecem ao consumidor mais exigente uma série de bons lançamentos. Principalmente de música instrumental. Muitos deles, de artistas fora do mercado há um bom tempo, graças à "inteligência" dos "diretores artísticos" das grandes companhias multinacionais.
Pianista, arranjador, compositor e produtor, Mú Carvalho é um destes artistas. Agora, com o lançamento do Pianista do Cinema Mudo, segundo trabalho solo e primeiro em 17 anos, ele volta a ocupar um espaço, deixado vago desde o discreto e eficiente LP Meu Continente Encontrado, lançado em 1995 pelo selo Carmo, de Egberto Gismonti.
Mais conhecido como tecladista do grupo A Cor do Som, Mú consegue retornar às lojas graças a seu próprio selo, Boogie Woogie Music, que estréia com o primeiro CD do dono. Com título inspirado na profissão da avó, Alice Magalhães, que tocava piano para os espectadores do Cinema Central, em Juiz de Fora, nos anos 30, o disco apresenta o artista revisitando com prazer as influências e memórias, tratadas com equilibrada fluência. Com predominância de sonoridades acústicas, ele se reveza entre dois pianos Yamaha, um S80 e um C-7, com exceção feita na faixa Chapliniana Z, homenagem à mulher e co-produtora Ana Zingoni, interpretada num solene Steinway D-279 grand piano.
O estilo elétrico exibido ao lado de Dadi, Ary, Gustavo e Armandinho no A Cor do Som só aparece em Hello Chick!, homenagem ao ídolo Chick Corea, também evocado na latina Hotel Guadalupe. Nas outras 12 faixas ele prefere, acompanhado de estrelas como Marcos Suzano ( percussão ), Jorge Helder ( baixo acústico ) e Márcio Malard ( violoncelo ), acompanhar uma tradição de piano brasileiro que encontra ecos contemporâneos quando evoca Egberto Gismonti, como na atualização de dois sucessos de seu grupo, Apanhei-te Minimoog e Intuição, e no diálogo entre os teclados e sopros de Nivaldo Ornelas ( A Semente Mágica ) e Carlos Malta ( na surpreendente releitura de Tico-Tico no Fubá ).
Com participações especiais de Oswaldinho do Acordeon, Armandinho, Ary Dias e do Quarteto Bessler, o Cd traz preciosidades como uma homenagem a Astor Piazzola ( O Sol da Noite de Les Baux ), uma brincadeira com a série de discos de piano-bar Um Piano ao Cair da Tarde ( Uma tarde ao Cair do Piano ) e uma salsa inspirada nas polcas que ouvia quando criança ( A Dança dos Camundongos ). Um disco confortável e inspirador, como as nostálgicas fotos de encarte e o céu de quase baunilha das fotos de divulgação.
|