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Revisa Istoé Gente
Setembro 2001

POR ONDE ANDA
MÚ CARVALHO

A Cor do Som é rap
Ele causava histeria entre as adolescentes dos anos 80.
Hoje, o ex-tecladista da banda A Cor do Som é um dos autores dos raps
 cantados na novela das sete da Globo


Luís Edmundo Araújo

“Tenho saudade da qualidade do som que fazíamos”...

Com a cabeleira escorrida e uma desalinhada franjinha, ele causava frisson entre as meninas que, nos 70 e 80, curtiam A Cor do Som. O então tecladista Mú formava com o irmão, o baixista Dadi, a dupla de magrinhos sensuais da festejada banda pop que acabou em 1986 e teve um breve retorno em 1994. Hoje, aos 44 anos, Mú está longe de ser protagonista da histeria de milhares fãs em aeroportos ou de sair dos hotéis escoltado por batedores da polícia. Mas está de volta à cena na novela das sete da Globo. Ou melhor, volta por trás da cena. Produtor musical de As Filhas da Mãe, de Sílvio de Abreu, ele é autor, junto com os músicos Dudu e Paulinho, dos raps que acompanham a trama.

De certa forma, Mú, ou Maurício Magalhães Carvalho, segue os passos da avó. No início do século passado, a pianista Alice Magalhães tocava, ao vivo, a trilha sonora que servia de fundo para os filmes mudos exibidos no antigo cinema central de Juiz de Fora. Com as novidades tecnológicas dos dias de hoje, Mú grava cerca de 15 raps por dia, resumindo os capítulos da novela ou apresentando os personagens. “É como se você fosse um ator. Tem que compor interpretando uma situação”, diz ele. Desde 1995, quando compunha para o Você Decide, ele faz música incidental para produções da Globo. Ao todo, foram cinco novelas. Nada, porém, comparável ao trabalho atual. “Você tem que ser meio repentista para ir contando a história”, afirma Mú, que recebe as letras de Dudu e grava com Paulinho em seu estúdio, o Boogie Woggie, no Rio, no qual é sócio de sua segunda mulher, a guitarrista Ana Zingoni, 37 anos, sua mulher há sete anos.


Mú leva hoje uma vida bem diferente da época do A Cor do Som. Da banda criada em 1977 só restaram boas lembranças. “Tenho saudade da qualidade da música que fazíamos”, diz. No auge do sucesso, A Cor do Som chegou a fazer 200 shows por ano. “Vendíamos 100 mil discos, o equivalente hoje a 1 milhão”, diz Mú. Poucas bandas foram tão populares com as adolescentes. O tecladista se lembra do apuro que passou numa edição do Festival de Montreaux por causa das cenas de assédio explícito da filha menor de idade de um dos chefões da Nestlé. “Fui muito assediado, mas tinha para todos os outros integrantes”, diverte-se.

Reprodução
Mú (último à dir. na foto da banda), com Ari, Dadi, Armandinho e Gustavo
(da esq. para a dir.)

A banda começou a fraquejar com a saída, em 1982, do guitarrista Armandinho. “Não interessa juntar cinco músicos. Para dar certo precisa ter química”, diz Mú. Com a explosão do rock nacional, perdeu espaço nas gravadoras. Separadamente, porém, todos os integrantes da formação original do grupo continuam trabalhando com música. Dadi, irmão de Mú, toca com Marisa Monte; o guitarrista Armandinho seguiu carreira solo; o baterista Gustavo toca com Zé Ramalho e o guitarrista Ari acompanha Rita Lee. Armandinho e Gustavo também dão aulas de música.

Pai de três adolescentes – Gabriel, 18, Diego, 16, e Eduardo, 11 –, filhos do primeiro casamento, e com dois enteados – João Pedro, 13, e Maria Clara, 8 –, Mú nem pensa em voltar ao circuito de shows. “Não dá mais para viver aquela canseira do pé na estrada”, diz, apesar dos inúmeros pedidos de fãs para o grupo voltar à ativa. Dadi, porém, vislumbra esta possibilidade. Os integrantes de A Cor do Som devem gravar um DVD até o fim do ano.

 “Podemos fazer algumas apresentações também”, diz Dadi. “Sinto falta, principalmente, de tocar com meu irmão.” Pelo menos por enquanto, Mú está mais interessado em tocar o trabalho na tevê e se aproximar ainda mais do que a avó fazia. Em outubro, lança seu segundo disco solo, de música instrumental. Uma homenagem a Alice Magalhães, a pianista do cinema mudo que inspira os trabalhos do neto.