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Jornal O Globo
Fevereiro de 2002



  
Sons e cores do pianista que saiu de cena


Rio, 25 de Fevereiro de 2002


Mú Carvalho reforça o bom momento da música instrumental brasileira com o lançamento de seu segundo CD

Bernardo Araujo

 

    
Mú Carvalho:disco instrumental acústico e o projeto de uma gravadora, 
a Boogie Woogie, comprometida com a música "de qualidade"

 

Nascido no Rio e musicalmente criado sob a influência da música baiana, Mú Carvalho foi a Juiz de Fora encontrar suas origens. Em seu segundo disco solo, “O pianista do cinema mudo”, o músico lembra a avó, Alice Magalhães, que na década de 30 animava as sessões do Cinema Central de Juiz de Fora. Conhecido pela mistura de rock e música brasileira que marcava seu grupo, a Cor do Som, nos anos 70 e 80, Mú aparece dando vazão a um lado menos conhecido: influências de compositores como Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu (de quem gravou o clássico “Tico-tico no fubá”) e o pianista de jazz americano Chick Corea.

— Corea tem um disco de 1976 chamado “My Spanish heart”, que ouvi até furar — lembra Mu. — Meu disco traz uma composição inspirada nessa fase espanhola dele, “Hotel Guadalupe”, e mais uma que compus como uma homenagem, “Hello Chick!”.

Primeiro disco de Mú foi lançado há 17 anos

O disco tem ainda composições de Mú da época da Cor do Som, como “Apanhei-te, Minimoog” e “Intuição”.

— Já gravei essas músicas há muitos anos, queria dar uma nova cara a elas — diz ele. — Este disco é todo acústico, e eu passei por fases em que os teclados eram meu principal instrumento.

Mú conta que há anos tinha planos de lançar um CD — seu único disco solo, “Meu continente encontrado”, produzido por Egberto Gismonti, é de 1985 — mas foi difícil viabilizar o projeto.

— É muito difícil gravar um disco independente, custa caro, e as gravadoras não têm interesse pela música instrumental — lembra ele. — Depois de anos de trabalho, consegui montar o meu estúdio, o Boogie Woogie, em sociedade com a minha mulher, Ana Zingoni, e abrimos um selo, o Boogie Woogie Music.

Há cerca de cinco anos os fãs da Cor do Som e da competência de Mú deixaram de vê-lo ao vivo. Após a separação da banda, nos anos 80, ele passou anos acompanhando outros artistas — Gilberto Gil, Jorge Benjor, Fernanda Abreu e outros — até ser convidado, no meio da década passada, a trabalhar na Rede Globo, compondo e gravando trilhas sonoras e música incidental para novelas e outros programas.

— Sabe aquela música que você nem percebe que está ouvindo, mas que faz toda a diferença no clima de uma cena? — pergunta Mú. — Pois esse é o meu trabalho.

Ele ainda tentou conciliar a Globo com as turnês, mas um incidente em 1996 o fez desistir e optar pela emissora.

— Eu estava acompanhando Gabriel O Pensador em uma viagem, mas tive que vir ao Rio cuidar das minhas trilhas — conta ele. — A gente tinha um show em São Paulo, eu fui em cima de hora e a Ponte Aérea estava fechada. O pior é que o show dependia muito de mim, porque todos aqueles samples das músicas do Gabriel eram responsabilidade minha. Acabamos tocando com algumas horas de atraso, mas eu resolvi trabalhar apenas na Globo e ir montando o meu estúdio, na Barra.

Após a estréia com “O pianista do cinema mudo”, a Boogie Woogie Music pretende lançar trabalhos de outros artistas, como a própria sócia e mulher de Mú, Ana Zingoni, que inspira no disco a música “Chapliniana Z”.

— Ana é cantora, queremos gravar composições de Lupicínio Rodrigues e coisas nessa praia — diz Mú. — Outros músicos, como Nivaldo Ornelas, responsável pelos arranjos de cordas no meu disco, também devem gravar conosco. Eu me preocupo com a música de qualidade que não tem espaço nas grandes companhias. Estou muito feliz com a reação da música instrumental, que está ganhando espaço, e acho que podemos entrar para o grupo dos incentivadores.

Para os fãs da Cor do Som, Mú tem uma boa notícia: o grupo está gravando um CD acústico em seu estúdio, ainda sem data de lançamento.

— Só conseguimos gravar duas faixas, mas logo vamos retomar — promete.

DISCO CRÍTICA
Reencontro com o melhor do passado

É interessante verificar como, mais de duas décadas depois, “Apanhei-te minimoog”, tema que Mú Carvalho lançara com a Cor do Som, ganha nova vida, agora em roupagem acústica e mais para o baião do que para o choro. Prazeroso também confirmar o ótimo pianista que Mú sempre foi e como ele cresceu como compositor.

Fiel ao título, “O pianista do cinema mudo” viaja por estilos do início do século XX mas não soa nostálgico. Seus tangos, choros, baiões, habaneras e valsas estão muito vivos. De acentuado sotaque caribenho, “A dança dos camundongos” é um dos exemplos: lúdica melodia bem desenvolvida no instrumental, que joga com piano, percussão (Marcos Suzano, Ary Dias e Sidinho), contrabaixo (Jorge Helder), violino (Ricardo Amado) e violoncelo (Marcio Mallard), em arranjo de cordas de Nivaldo Ornellas. Aliás, mais conhecido como (ótimo) saxofonista e flautista, Ornellas assina sete bons arranjos de cordas.

Parceiro na Cor do Som, Armandinho é um dos convidados de destaque. Toca bandolim na nova versão de “Intuição” (outra composição de Mú lançada pelo grupo) e em “Viver para sorrir”, e uma envenenada guitarra baiana em “Hello Chick”. Nesta, por sinal, “O pianista do cinema mudo” reencontra o som da Cor do Som, grupo que também teve seus ótimos momentos, até sucumbir às pressões do mercado de disco. (A.C.M.)