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Nascido no Rio e musicalmente criado sob a influência da música baiana, Mú
Carvalho foi a Juiz de Fora encontrar suas origens. Em seu segundo disco solo,
“O pianista do cinema mudo”, o músico lembra a avó, Alice Magalhães, que
na década de 30 animava as sessões do Cinema Central de Juiz de Fora.
Conhecido pela mistura de rock e música brasileira que marcava seu grupo, a Cor
do Som, nos anos 70 e 80, Mú aparece dando vazão a um lado menos conhecido:
influências de compositores como Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu (de quem
gravou o clássico “Tico-tico no fubá”) e o pianista de jazz americano
Chick Corea.
— Corea tem um disco de 1976 chamado “My Spanish heart”, que ouvi até
furar — lembra Mu. — Meu disco traz uma composição inspirada nessa fase
espanhola dele, “Hotel Guadalupe”, e mais uma que compus como uma homenagem,
“Hello Chick!”.
Primeiro disco de Mú foi lançado há 17 anos
O disco tem ainda composições de Mú da época da Cor do Som, como
“Apanhei-te, Minimoog” e “Intuição”.
— Já gravei essas músicas há muitos anos, queria dar uma nova cara a elas
— diz ele. — Este disco é todo acústico, e eu passei por fases em que os
teclados eram meu principal instrumento.
Mú conta que há anos tinha planos de lançar um CD — seu único disco solo,
“Meu continente encontrado”, produzido por Egberto Gismonti, é de 1985 —
mas foi difícil viabilizar o projeto.
— É muito difícil gravar um disco independente, custa caro, e as gravadoras
não têm interesse pela música instrumental — lembra ele. — Depois de anos
de trabalho, consegui montar o meu estúdio, o Boogie Woogie, em sociedade com a
minha mulher, Ana Zingoni, e abrimos um selo, o Boogie Woogie Music.
Há cerca de cinco anos os fãs da Cor do Som e da competência de Mú deixaram
de vê-lo ao vivo. Após a separação da banda, nos anos 80, ele passou anos
acompanhando outros artistas — Gilberto Gil, Jorge Benjor, Fernanda Abreu e
outros — até ser convidado, no meio da década passada, a trabalhar na Rede
Globo, compondo e gravando trilhas sonoras e música incidental para novelas e
outros programas.
— Sabe aquela música que você nem percebe que está ouvindo, mas que faz
toda a diferença no clima de uma cena? — pergunta Mú. — Pois esse é o meu
trabalho.
Ele ainda tentou conciliar a Globo com as turnês, mas um incidente em 1996 o
fez desistir e optar pela emissora.
— Eu estava acompanhando Gabriel O Pensador em uma viagem, mas tive que vir ao
Rio cuidar das minhas trilhas — conta ele. — A gente tinha um show em São
Paulo, eu fui em cima de hora e a Ponte Aérea estava fechada. O pior é que o
show dependia muito de mim, porque todos aqueles samples das músicas
do Gabriel eram responsabilidade minha. Acabamos tocando com algumas horas de
atraso, mas eu resolvi trabalhar apenas na Globo e ir montando o meu estúdio,
na Barra.
Após a estréia com “O pianista do cinema mudo”, a Boogie Woogie Music
pretende lançar trabalhos de outros artistas, como a própria sócia e mulher
de Mú, Ana Zingoni, que inspira no disco a música “Chapliniana Z”.
— Ana é cantora, queremos gravar composições de Lupicínio Rodrigues e
coisas nessa praia — diz Mú. — Outros músicos, como Nivaldo Ornelas,
responsável pelos arranjos de cordas no meu disco, também devem gravar
conosco. Eu me preocupo com a música de qualidade que não tem espaço nas
grandes companhias. Estou muito feliz com a reação da música instrumental,
que está ganhando espaço, e acho que podemos entrar para o grupo dos
incentivadores.
Para os fãs da Cor do Som, Mú tem uma boa notícia: o grupo está gravando um
CD acústico em seu estúdio, ainda sem data de lançamento.
— Só conseguimos gravar duas faixas, mas logo vamos retomar — promete.
DISCO
CRÍTICA
Reencontro com o melhor do passado
É interessante verificar como, mais de duas décadas depois, “Apanhei-te
minimoog”, tema que Mú Carvalho lançara com a Cor do Som, ganha nova vida,
agora em roupagem acústica e mais para o baião do que para o choro. Prazeroso
também confirmar o ótimo pianista que Mú sempre foi e como ele cresceu como
compositor.
Fiel ao título, “O pianista do cinema mudo” viaja por estilos do início do
século XX mas não soa nostálgico. Seus tangos, choros, baiões, habaneras e
valsas estão muito vivos. De acentuado sotaque caribenho, “A dança dos
camundongos” é um dos exemplos: lúdica melodia bem desenvolvida no
instrumental, que joga com piano, percussão (Marcos Suzano, Ary Dias e Sidinho),
contrabaixo (Jorge Helder), violino (Ricardo Amado) e violoncelo (Marcio Mallard),
em arranjo de cordas de Nivaldo Ornellas. Aliás, mais conhecido como (ótimo)
saxofonista e flautista, Ornellas assina sete bons arranjos de cordas.
Parceiro na Cor do Som, Armandinho é um dos convidados de destaque. Toca
bandolim na nova versão de “Intuição” (outra composição de Mú lançada
pelo grupo) e em “Viver para sorrir”, e uma envenenada guitarra baiana em
“Hello Chick”. Nesta, por sinal, “O pianista do cinema mudo” reencontra
o som da Cor do Som, grupo que também teve seus ótimos momentos, até sucumbir
às pressões do mercado de disco. (A.C.M.)
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