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Entrevista publicada na Tribuna da Imprensa
Junho 2002


"Tenho Saudade dos anos 70, quando se fazia música boa"

Elias Nogueira

Maurício Magalhães Carvalho, mais conhecido como Mú Carvalho, fez muito sucesso como tecladista nos anos 80, ao lado do irmão Dadi, quando causava certa histeria entre as meninas que apreciavam A Cor do Som, uma das mais importantes bandas brasileiras dos anos 70 e 80. Hoje Mú, aos 44 anos, além de músico é produtor musical da TV Globo e especialista em composições de trilhas sonoras. 
É também empresário e dono do selo Boogie Woogie, em parceria com sua esposa e guitarrista, Ana Zingoni. Em entrevista exclusiva para o BIS, ele comenta sobre o novo CD, "O pianista do cinema mudo", conta como foi o início da A cor do som e promete surpresas para breve, com novos lançamentos de Nivaldo Ornelas e Ary Dias, entre outros.


BIS - Como foi o início de sua carreira, da turma do colégio, até entrar na A Cor do Som?
MÚ CARVALHO - O começo foi com Cláudio Nucci, Zé Renato e Cláudio Infante, era 1974 ou 73 talvez. Nós estudávamos no colégio Rio de Janeiro, participávamos de festivais e fazíamos shows pela Zona Sul. O Dadi, meu irmão, já tocava com os Novos baianos, quando o Moraes Moreira resolveu fazer um disco solo. Para gravar ele trouxe o Armandinho e o Dadi, que chamou o Gustavo. 
O Moraes queria fazer piano em uma faixa e lembrou de mim. Foi a primeira vez que eu gravei profissionalmente em estúdio. Nessa época meu outro irmão, o Sergio Carvalho, que era o produtor musical da PolyGram, em 1976, achou que poderíamos formar uma banda e que tínhamos uma sonoridade bacana e resolveu abrir o espaço na gravadora, para ver se conseguia fazer um contrato com a banda, mas antes tínhamos que fazer um repertório. 
Gravamos músicas do Armandinho, Ernesto Nazareth e uma minha. Fizemos uma demo, mas o pessoal da gravadora achou que não era comercial. Só que nessa mesma época o André Midani, que estava montando a WEA no Brasil, escutou a fita, se apaixonou e contratou a banda por três anos. Lançamos o primeiro disco, "A Cor do Som", em 1977, que é quase todo instrumental. 
Neste período aconteceu uma convenção da WEA no Hotel Nacional e o presidente da gravadora estava lá, já tinha visto a banda tocar e chamou para nos apresentarmos no festival em Montreux, na Suíça, em 1978, show que acabou se transformando em um disco ao vivo. 
Mas vocês estouraram mesmo quando lançaram "Frutificar".
Foi no terceiro disco que a coisa tomou outra dimensão, "Frutificar" tinha músicas de Gilberto Gil e de Caetano, nós tínhamos shows pelo Brasil inteiro, chegamos a tocar para platéias de 50 mil pessoas.



BIS - Como surgiu a idéia de fazer um disco acústico homenageando o cinema mudo?
MÚ CARVALHO - Eu venho pensando em fazer um disco acústico há muito tempo. Eu adoro o disco do Chick Corea, "My spanish heart", onde ele pegou músicas espanholas e deu uma leitura de quarteto de cordas e baixo acústico, uma coisa bem moderna, jazz com música espanhola. 
"My spanish heart" é o disco que eu levaria para uma ilha deserta. Então eu pensei, tenho que fazer isso com a música brasileira, foi influência total. Há três anos atrás, eu e Ana Zingoni (ex guitarrista da banda Barbarela), minha esposa, resolvemos montar um estúdio, foi a partir daí que comecei a pensar em fazer um disco. 
Pensei na minha avó por ela ter sido pianeira do cinema mudo, é uma coisa bonita, me identifiquei e tem um link com meu trabalho. Assim nasceu a idéia de fazer um disco e dedicar para minha avó, dona Alice Magalhães, ela merece esta homenagem. O disco é coisa de cinema mudo mesmo, meio que Charles Chaplin, tem uma música que se chama "Chapliniana Z" que é dedicada à minha mulher Ana, que sintetiza a história do disco e minha admiração pelas trilhas sonoras do cinema mudo. 


BIS - Você regravou músicas da A Cor do Som. Foi por nostalgia?
MÚ CARVALHO - Eu regravei algumas músicas por dois motivos. A primeira porque eu acho que tem a ver com este disco e a segunda porque eu queria dar um textura acústica nestas músicas e usar quartetos de cordas. 
Como já houve um revival da A Cor do Com em 1994, existe algum projeto para um possível retorno? Já foram convidados para fazer um acústico?
É muito complicado juntar A Cor do Som, porque todos são muitos ocupados, mas às vezes nos reunimos, já aconteceu em 1994 no Circo Voador, quando gravamos ao vivo mas só conseguimos lançar em 1997, e chegamos a ganhar o prêmio Sharp. Ano passado lançamos o songbook. Já fomos convidados várias vezes para fazer um acústico, mas não chegamos a um acordo. Eu faria um disco acústico da A Cor do Som no estúdio, mas no formato da MTV não, já está muito manjado, deste jeito eu não tenho tesão. 



BIS - Você tem previsão de algum artista a ser lançado pelo selo Boogie Woogie?
MÚ CARVALHO - A idéia do selo é basicamente lançar música de qualidade e que tenha elementos brasileiros voltado para o exterior, porque o mercado nacional está muito complicado e não queremos ficar estagnados, pensando somente no Brasil. Estamos em fase final do disco do Nivaldo Ornelas, que é instrumental, e começaremos a trabalhar em breve no disco do Ary Dias e Cidinho (percussionista que tocou com Paul Simon) e o da guitarrista Ana Zingoni. Isso tudo bem administrado, até porque não temos nenhum apoio financeiro, fazemos tudo com recursos próprios. 



BIS - Quanto a drogas, qual sua posição? Você é favor da liberação da maconha?
MÚ CARVALHO - Eu acho que é um assunto muito sério, tenho cinco filhos. Então... isso é uma coisa que me preocupa muito, tem que haver muito diálogo, saber com quem eles andam. A galera de hoje está mais tranqüila e bem informada, nos anos 70 foi feito de tudo e muita gente morreu, nós sabemos a conseqüência das drogas pesadas, eu acho que essa turma de hoje não está querendo pisar neste terreno. 
Quanto à maconha, se fosse liberada talvez ajudasse acabar com o tráfico, já ficou provado que a maconha serve para uso medicinal. O álcool, por exemplo, é muito mais pesado. No meu caso eu prefiro tomar um vinho. 



BIS - Você tem saudades de alguma época?
MÚ CARVALHO - Tenho saudades dos anos 70, quando se fazia música boa. Hoje em dia a qualidade da música é item sem a menor importância.